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junho 01, 2006

O realejo

7 da manhã. A mãe já saíra para apanhar o comboio para o emprego, deixando-lhe um beijo na testa enquanto ele fingia ainda dormir. O pai mira-o da fotografia da mesinha de cabeceira. Abre a gaveta de onde tira o seu presente do oitavo aniversário, o último que festejou antes de o pai morrer: um realejo.

Não é um realejo qualquer. Tinha já pertencido ao seu avô, tendo passado para o seu pai. Este, sabendo que estava perto do fim da sua vida, ofereceu-lho e ensinou-lhe a tocar as mais belas modas. Foi o que lhe ficou do pai, juntamente com as histórias de países distantes que, enquanto marinheiro, visitara.

Entretanto, passaram 3 anos. Todos os dias, a mãe sai de casa às 6 da manhã e só volta às 8 da noite. De manhã, deixa-lhe o pão e o leite na mesa, à noite comem a sopa com broa, por vezes algum petisco extra, e conversam sobre a escola. Ele mente, escondendo da mãe o facto de raramente ir lá. Já sabe ler e escrever, quer é conhecer o mundo, como o pai fizera.

Assim, depois do pequeno-almoço, pega no realejo e sai de casa. Os seus primeiros passos seguem na direcção da rua central, onde ajuda o Sr. Santos a carregar a mercadoria que chega ao armazém, a troco de dois cigarros e de uma saqueta de cromos de futebol. O resto da manhã passa-o na escadaria da estação do metro, tocando o realejo enquanto algumas moedas caem no chapéu e alguns transeuntes correspondem ao seu pedido de cigarros. De vez em quando aparecem os polícias e estragam-lhe o negócio. Mas hoje tudo correu bem, ganhou 4 euros e 3 cigarros.

O almoço é na casa da madrinha. Esta preocupa-se com ele. Quando vê que a roupa ou os sapatos estão mais gastos, aparece com um saco de roupa e calçado que pertencera ao filho. Também lhe ralha por saber que ele não vai à escola. Já tentara de tudo, chegou a levá-lo lá pelas orelhas, mas acabou por desistir, perante a persistência do afilhado. Contudo, ocultou sempre o facto da comadre, já carregada de problemas.

A tarde sempre foi variada. Quando chove, mete-se no shopping onde embacia as vitrinas com modelos de barcos. Se faz sol, compete com os frequentadores da taberna do Sr. Guilhermino, poucas vezes perdendo no bota-abaixo. Noutras ocasiões vai ganhar mais algum dinheiro, com o seu realejo.

Outras vezes, como hoje, vai para o cais, tocar as modas que o pai lhe ensinou, e ver os barcos, melancolicamente. Num deles, quando tiver o dinheiro suficiente, partirá um dia, rumo ao desconhecido.

(publicado anteriormente no ante et post)

abril 20, 2006

O mar

Chamava-se Mariana. Como o seu irmão, Marco, tinha o nome começado por mar, porque o mar era sustento da sua famíla. Família de pescadores, o mar era tudo para eles. Quando nasciam, eram banhados no mar, para que os espíritos dos que partiram os protegesse. Depois, era o sustento. Por fim, ou morriam no mar ou eram-lhe posteriormente entregues.

Mariana sabia que o mar tudo dava e tudo tirava. Levara-lhe o pai, bem cedo. Por esse motivo, Marco começou cedo na faina. Um dia também não voltou. Poucos dias depois, a mãe terá escorregado num falésia e desapareceu para sempre. Mariana ficou só.

Apesar da tragédia familiar, Mariana conseguiu ganhar a vida sozinha. De mãos prendadas, fazia os bordados mais bonitos da região. E assim se fez mulher, independente. Nenhum dos rapazes das redondezas lhe conquistara o coração.

Um dia, um rapaz bateu à sua porta. Era João, outrora pescador e seu vizinho, que partira para tentar a sorte na cidade. Tornara-se fotógrafo. Tinha decidido vir reviver a sua infância, fotografar a vida dos pescadores. Pensava ficar uma semana. Acabou por ir ficando, fascinado por Mariana.

Um dia João perguntou a Mariana a quem devia pedir a sua mão. Nessa noite, Mariana levou-o até à praia. E João, virando-se ao mar, pediu aos seus pais e irmão a sua mão. Uma brisa beijou-lhes a cara, abençoando-os. Naquele momento, independentemente de qualquer papel oficial, eram marido e mulher. E os seus corpos salgados uniram-se na areia molhada, sendo o mar testemunha do seu amor.

Alguns dias depois, João partiu com os pescadores. Queria fotografar o seu trabalho árduo. Mariana, pressentindo o pior, pediu-lhe que não fosse. Ele descansou-a, dizendo-lhe que eram só algumas horas. Mas as horas passaram, e o barco não voltou.

Desde então, Mariana começou a ir todos os dias olhar o mar, na esperança do seu regresso. A esperança foi dando lugar à resignação. Já só ia lá recordar, reviver os bons momentos que o mar lhe reservara.

Até que, nove meses depois daquele fatídico dia, fez as malas. Pegou no filho, entretanto nascido, e foi banhá-lo no mar, cumprindo a tradição. Tinha esperado até àquele momento para que o pai, os avós, o tio e todos os seus antepassados conhecessem o seu filho, o primeiro homem da família que não seria pescador. Depois, abalou para o interior, onde o mar não os conseguiria alcançar.

(publicado anteriormente no ante et post)

abril 06, 2006

O "ladrão" de tomates

João, empregado de escritório, identidade secreta: "ladrão" de tomates.

Olá, o meu nome é João, sou conhecido, embora ninguém saiba que sou eu, pelo "ladrão" de tomates. Com aspas, porque, na realidade, eu não os roubo. Mas comecemos, como deve ser: pelo início.

Fui habituado, desde sempre, a comer salada de tomate com todas as refeições. E assim, depois de casado, continuei a manter esse hábito saudável. Mas certo dia cometi um erro. Por duas vezes consecutivas reclamei por causa da qualidade dos tomates que a minha mulher tinha comprado.

Os tomates não podem ser demasiado maduros nem demasiado verdes. Têm de estar no ponto certo. Mas como se pode fazer ver isso a uma mulher? Assim, ao invés de a convencer a ter mais cuidado na escolha dos ditos, ela disse, naquele tom que não admite ser contrariado:
- Se não gostas da minha escolha de tomates, compra-os tu!

E assim, a partir daquele dia, fiquei eu incumbido da compra dos tomates. Mas se, por um lado, sabia apreciar o sabor, a escolha visual ou apalpativa dos tomates não era arte que eu dominasse. Assim, tentei ver, no hipermercado, o que uma senhora idosa (na realidade, era uma velha, mas disseram-me que agora se usa o termo idosa) escolhia. Mas não consegui vislumbrar um padrão na sua escolha que me permitisse inferir um conjunto de regras simples para seguir.

Foi então que a senhora idosa, após pesar os tomates, os colocou no carrinho, e afastou-se, para escolher os pepinos. Foi então que, por instinto, me acerquei do carrinho, e num movimento rápido, peguei no saco e fui a correr para a caixa, paguei e vim-me embora.

Quando cheguei a casa, verifiquei que os tomates tinham a qualidade que o meu paladar exigia. Agora, tinha a certeza, as velhas, digo, as senhoras idosas são as mais bem apetrechadas no que toca ao conhecimento táctil e cromático dos tomates. A partir daí, comecei a seguir este estratagema:
1. Hipermercado.
2. Senhora idosa a escolher tomates.
3. Esperar que ela pese e coloque os tomates no carrinho.
4. Pegar nos tomates já pesados.
5. Pagar na caixa.
6. Sair.

Ao fim de um mês descobri que tinha ganho identidade secreta: "ladrão" de tomates. Entre aspas, porque não roubava, apenas usufruia de um serviço especializado gratuito. Com o tempo fui descobrindo o que distinguia um tomate bom dum tomate mau. Já não precisava de continuar a fazer o mesmo. Mas todo aquele ritual se tinha apoderado de mim, e já não conseguia passar sem ele.

Hoje tento, de todos os modos, perder esta mania estranha, mas não consigo. Mesmo que vá ao hipermercado convicto de que não vou comprar tomates, os meus passos dirigem-se, automaticamente, para lá. E volto a fazer o mesmo...

Dona Clotilde, senhora idosa.

Já é a quarta vez que tal me acontece, neste mês. A princípio pensei que fosse da idade, mas depois percebi que algo de estranho se passava.

O meu marido sempre me disse que eu tinha um dom especial na apalpação dos tomates. E eu acho que sim, tomates que eu comprasse no mercado estavam sempre no ponto certo, nem demasiado maduros nem demasiado verdes.

O certo é que, pela quarta vez, neste mês, após ter escolhido e pesado os tomates, os coloquei no carrinho de compras. Fui comprar outros legumes e, quando voltei, os tomates tinham desaparecido. Não consigo perceber o que se passa. É que eles ainda nem sequer estavam pagos.

Rui, filho de João, aluno imberbe de escola secundária, em processo de afirmação pessoal.

O meu pai sempre me foi buscar à escola, desde pequeno. Durante muito tempo não me importei. Até gostava de ir para casa com ele, falávamos de futebol, de revistas de mulheres nuas, ou até sobre a última encíclica papal ou a última condecoração do Presidente da República. Enfim, sentia-me orgulhoso de ter um pai fixe.

Mas, ultimamente, o meu pai criou o estranho hábito de me ir buscar com um saco de tomates na mão. E a conversa anda sempre á roda dos ditos - a sua cor, textura, etc... E mesmo que eu tentasse, por exemplo, falar sobre a má arbitragem do último domingo, ele conseguia levar a conversa de volta ao seu tema preferido.
- Um árbitro tem de ter tomates! Por falar em tomates...

Eu sei que até parece mal estar a falar mal do meu pai, mas já não aguento ouvir as bocas dos meus colegas:
- Olha, lá vem o teu pai com os tomates na mão...

Maria, esposa de João, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença.

A culpa foi minha, eu sei. Mas já era a segunda vez que ele protestava por causa da minha escolha de tomates. E eu não aguentei, mandei-o comprar ele. Mas, ao invés de ele não conseguir dar conta do recado e vir-me pedir, de joelhos, para voltar a ser eu a escolher os tomates, ele conseguiu tomar conta do recado, e tornou-se um especialista.

Mas, desde então, a minha vida tem sido um inferno. Os tomates estão por todo o lado. Já não há espaço na cozinha para tanto tomate. Mas isso não é o pior.

Há dias, estando nós em plena consumação das obrigações matrimoniais, ele me pediu:
- Posso pedir-te uma coisa, para apimentar mais este acto?
- Mas claro - disse eu, contente por ele estar a propor algo de novo.
- Podes pegar... nos meus tomates?

Eu fiquei excitadíssima com aquele pedido e disse:
- Claro que sim!

Foi então que, inesperadamente, ele se levantou e foi à cozinha, voltando com dois tomates, que depositou nas minhas mãos, todo contente.

Nem sei o que pensei na altura. Mas desde então que ele me pede para fazer o mesmo todas as vezes que consumamos as nossas obrigações matrimoniais. Eu não sei o que fazer. Fingir um orgasmo já é difícil com as mãos desocupadas, mas assim, torna-se uma tarefa praticamente impossível...

(publicado anteriormente no ante et post)

março 30, 2006

O poço

Dizia-se que a água do poço era santa, quem dela bebesse, os seus males curava. Era uma água única. Diziam os filhos da terra que de Verão era fresquinha e que de Inverno até fumegava. O progresso chegou e trouxe consigo a água canalizada, mas o povo não esqueceu o poço. Todos os dias bebiam pelo menos um copo da sua água, quando estavam doentes, bebiam toda a que podiam.

Mas o poço estava ao lado de uma mansão abandona. Um dia, um forasteiro comprou a casa, e com ela o poço, e mudou-se para lá. Era um homem da cidade, que resolvera ir respirar ares menos poluídos.

No primeiro dia que chegou lá, viu algumas pessoas irem buscar água. Mandou-os embora. Eles não obedeceram, que a água do poço era de todos. Perante os seus ares ameaçadores, recuou.

Na semana seguinte, começou a ser erigido um muro à volta da casa e do poço. Numa semana ficou pronto. No dia seguinte, deitaram abaixo parte do muro, junto ao poço, e as pessoas continuaram a poder ir buscar água.

O muro foi reconstruído. A polícia foi chamada para evitar novos problemas. Se de dia, tirando os protestos contra o forasteiro, nada aconteceu, pela calada da noite, parte do muro foi dinamitada, permitindo novamente o acesso ao poço.

Mas o proprietário estava cada vez mais determinado. Voltou a reconstruir o muro, instalou câmaras de vídeo, colocou alarmes, arame farpado, cães de guarda, tudo o que se lembrou. Desta vez, o muro manteve-se de pé.

O povo nomeou então uma comissão para ir falar com o proprietário. Mas ele não cedeu, o poço era seu, aquela propriedade era sua, tinha-a comprado com o suor do seu trabalho.

Depois da comissão, foi o senhor padre. Bem tentou apelar ao seu coração cristão, mas nada feito. Se Deus estivera com ele todo aquele tempo, ajudando-o a acumular riqueza, também esta, com toda a certeza, do lado dele naquele assunto.

Alguns dias depois, já o sol morrera, numa noite calma em que o vento emudecera, estava ele em sua casa, quando os cães começaram a ladrar. Pegou na sua caçadeira, e saiu. Depois de verificar tudo da parte de dentro do muro, dirigiu-se ao portão. Abriu-o e espreitou. Nesse momento, um tiro quebrou o silêncio da noite, e uma bala certeira atingiu-o.

Atordoado, cambaleou, procurou as suas últimas forças, e num último instinto protector, fechou o portão da sua propriedade, antes de cair, morto.

(publicado anteriormente no ante et post)