João, empregado de escritório, identidade secreta: "ladrão" de tomates.
Olá, o meu nome é João, sou conhecido, embora ninguém saiba que sou eu, pelo "ladrão" de tomates. Com aspas, porque, na realidade, eu não os roubo. Mas comecemos, como deve ser: pelo início.
Fui habituado, desde sempre, a comer salada de tomate com todas as refeições. E assim, depois de casado, continuei a manter esse hábito saudável. Mas certo dia cometi um erro. Por duas vezes consecutivas reclamei por causa da qualidade dos tomates que a minha mulher tinha comprado.
Os tomates não podem ser demasiado maduros nem demasiado verdes. Têm de estar no ponto certo. Mas como se pode fazer ver isso a uma mulher? Assim, ao invés de a convencer a ter mais cuidado na escolha dos ditos, ela disse, naquele tom que não admite ser contrariado:
- Se não gostas da minha escolha de tomates, compra-os tu!
E assim, a partir daquele dia, fiquei eu incumbido da compra dos tomates. Mas se, por um lado, sabia apreciar o sabor, a escolha visual ou apalpativa dos tomates não era arte que eu dominasse. Assim, tentei ver, no hipermercado, o que uma senhora idosa (na realidade, era uma velha, mas disseram-me que agora se usa o termo idosa) escolhia. Mas não consegui vislumbrar um padrão na sua escolha que me permitisse inferir um conjunto de regras simples para seguir.
Foi então que a senhora idosa, após pesar os tomates, os colocou no carrinho, e afastou-se, para escolher os pepinos. Foi então que, por instinto, me acerquei do carrinho, e num movimento rápido, peguei no saco e fui a correr para a caixa, paguei e vim-me embora.
Quando cheguei a casa, verifiquei que os tomates tinham a qualidade que o meu paladar exigia. Agora, tinha a certeza, as velhas, digo, as senhoras idosas são as mais bem apetrechadas no que toca ao conhecimento táctil e cromático dos tomates. A partir daí, comecei a seguir este estratagema:
1. Hipermercado.
2. Senhora idosa a escolher tomates.
3. Esperar que ela pese e coloque os tomates no carrinho.
4. Pegar nos tomates já pesados.
5. Pagar na caixa.
6. Sair.
Ao fim de um mês descobri que tinha ganho identidade secreta: "ladrão" de tomates. Entre aspas, porque não roubava, apenas usufruia de um serviço especializado gratuito. Com o tempo fui descobrindo o que distinguia um tomate bom dum tomate mau. Já não precisava de continuar a fazer o mesmo. Mas todo aquele ritual se tinha apoderado de mim, e já não conseguia passar sem ele.
Hoje tento, de todos os modos, perder esta mania estranha, mas não consigo. Mesmo que vá ao hipermercado convicto de que não vou comprar tomates, os meus passos dirigem-se, automaticamente, para lá. E volto a fazer o mesmo...
Dona Clotilde, senhora idosa.
Já é a quarta vez que tal me acontece, neste mês. A princípio pensei que fosse da idade, mas depois percebi que algo de estranho se passava.
O meu marido sempre me disse que eu tinha um dom especial na apalpação dos tomates. E eu acho que sim, tomates que eu comprasse no mercado estavam sempre no ponto certo, nem demasiado maduros nem demasiado verdes.
O certo é que, pela quarta vez, neste mês, após ter escolhido e pesado os tomates, os coloquei no carrinho de compras. Fui comprar outros legumes e, quando voltei, os tomates tinham desaparecido. Não consigo perceber o que se passa. É que eles ainda nem sequer estavam pagos.
Rui, filho de João, aluno imberbe de escola secundária, em processo de afirmação pessoal.
O meu pai sempre me foi buscar à escola, desde pequeno. Durante muito tempo não me importei. Até gostava de ir para casa com ele, falávamos de futebol, de revistas de mulheres nuas, ou até sobre a última encíclica papal ou a última condecoração do Presidente da República. Enfim, sentia-me orgulhoso de ter um pai fixe.
Mas, ultimamente, o meu pai criou o estranho hábito de me ir buscar com um saco de tomates na mão. E a conversa anda sempre á roda dos ditos - a sua cor, textura, etc... E mesmo que eu tentasse, por exemplo, falar sobre a má arbitragem do último domingo, ele conseguia levar a conversa de volta ao seu tema preferido.
- Um árbitro tem de ter tomates! Por falar em tomates...
Eu sei que até parece mal estar a falar mal do meu pai, mas já não aguento ouvir as bocas dos meus colegas:
- Olha, lá vem o teu pai com os tomates na mão...
Maria, esposa de João, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença.
A culpa foi minha, eu sei. Mas já era a segunda vez que ele protestava por causa da minha escolha de tomates. E eu não aguentei, mandei-o comprar ele. Mas, ao invés de ele não conseguir dar conta do recado e vir-me pedir, de joelhos, para voltar a ser eu a escolher os tomates, ele conseguiu tomar conta do recado, e tornou-se um especialista.
Mas, desde então, a minha vida tem sido um inferno. Os tomates estão por todo o lado. Já não há espaço na cozinha para tanto tomate. Mas isso não é o pior.
Há dias, estando nós em plena consumação das obrigações matrimoniais, ele me pediu:
- Posso pedir-te uma coisa, para apimentar mais este acto?
- Mas claro - disse eu, contente por ele estar a propor algo de novo.
- Podes pegar... nos meus tomates?
Eu fiquei excitadíssima com aquele pedido e disse:
- Claro que sim!
Foi então que, inesperadamente, ele se levantou e foi à cozinha, voltando com dois tomates, que depositou nas minhas mãos, todo contente.
Nem sei o que pensei na altura. Mas desde então que ele me pede para fazer o mesmo todas as vezes que consumamos as nossas obrigações matrimoniais. Eu não sei o que fazer. Fingir um orgasmo já é difícil com as mãos desocupadas, mas assim, torna-se uma tarefa praticamente impossível...
(publicado anteriormente no ante et post)