O mar
Chamava-se Mariana. Como o seu irmão, Marco, tinha o nome começado por mar, porque o mar era sustento da sua famíla. Família de pescadores, o mar era tudo para eles. Quando nasciam, eram banhados no mar, para que os espíritos dos que partiram os protegesse. Depois, era o sustento. Por fim, ou morriam no mar ou eram-lhe posteriormente entregues.
Mariana sabia que o mar tudo dava e tudo tirava. Levara-lhe o pai, bem cedo. Por esse motivo, Marco começou cedo na faina. Um dia também não voltou. Poucos dias depois, a mãe terá escorregado num falésia e desapareceu para sempre. Mariana ficou só.
Apesar da tragédia familiar, Mariana conseguiu ganhar a vida sozinha. De mãos prendadas, fazia os bordados mais bonitos da região. E assim se fez mulher, independente. Nenhum dos rapazes das redondezas lhe conquistara o coração.
Um dia, um rapaz bateu à sua porta. Era João, outrora pescador e seu vizinho, que partira para tentar a sorte na cidade. Tornara-se fotógrafo. Tinha decidido vir reviver a sua infância, fotografar a vida dos pescadores. Pensava ficar uma semana. Acabou por ir ficando, fascinado por Mariana.
Um dia João perguntou a Mariana a quem devia pedir a sua mão. Nessa noite, Mariana levou-o até à praia. E João, virando-se ao mar, pediu aos seus pais e irmão a sua mão. Uma brisa beijou-lhes a cara, abençoando-os. Naquele momento, independentemente de qualquer papel oficial, eram marido e mulher. E os seus corpos salgados uniram-se na areia molhada, sendo o mar testemunha do seu amor.
Alguns dias depois, João partiu com os pescadores. Queria fotografar o seu trabalho árduo. Mariana, pressentindo o pior, pediu-lhe que não fosse. Ele descansou-a, dizendo-lhe que eram só algumas horas. Mas as horas passaram, e o barco não voltou.
Desde então, Mariana começou a ir todos os dias olhar o mar, na esperança do seu regresso. A esperança foi dando lugar à resignação. Já só ia lá recordar, reviver os bons momentos que o mar lhe reservara.
Até que, nove meses depois daquele fatídico dia, fez as malas. Pegou no filho, entretanto nascido, e foi banhá-lo no mar, cumprindo a tradição. Tinha esperado até àquele momento para que o pai, os avós, o tio e todos os seus antepassados conhecessem o seu filho, o primeiro homem da família que não seria pescador. Depois, abalou para o interior, onde o mar não os conseguiria alcançar.
(publicado anteriormente no ante et post)
Comentários
Muito bonito Jorge, muito bonito.
Colocado por: j.p. | abril 25, 2006 10:21 PM
j.p.,
obrigado. :-)
Colocado por: Jorge | abril 26, 2006 05:29 PM
Linda essa historia muito linda nao conhecia ela...
Colocado por: Nanah | julho 1, 2006 12:38 PM
Nanah,
muito obrigado.
Colocado por: Jorge | agosto 17, 2006 10:47 PM
Jorge tá espectacular 5* Olha será que podias continuar ou não sei se a história continua mas se continua não sei onde a encontrar. poderias me ajudar, tip manda para o meu mail danny_bensacity@hotmail.com Fico à espera ..
Colocado por: Daniel Monteiro | fevereiro 1, 2008 09:31 PM